Toda ação educativa coloca em jogo processos conscientes e inconscientes. Os primeiros, constituem o foco do ensino atual, enquanto os segundos, raramente são evidenciados, embora sejam de maior importância para a educação. Aqueles, consistem na transmissão dos conhecimentos, dos saberes, dos modelos de pensamento, do “fazer intelectual”, da formação do raciocínio. Os segundos ocupam-se da pessoa toda como ser psicoafetivo.
Segundo Lapierre e Aucouturier (2004) simultaneamente ocorre um processo de “formação do indivíduo social” em dois planos. O primeiro consiste na transmissão consciente de um código moral consciente o que deve e o que não deve ser feito. Essa transmissão é pouco eficaz. O segundo, totalmente inconsciente, tanto para o professor quanto para o aluno, consiste numa “disposição, determinada pela totalidade dos comportamentos do educador e do meio educativo em relação às pulsões e aos desejos primitivos dos educandos”.
É no nível inconsciente que os autores citados colocam o elemento essencial da educação, pois o comportamento humano é determinado mais pelo que ele é, pelo que ele sabe. Sabemos que os alunos, de modo geral, são condicionados pela autoridade do professor, buscando segurança no conformismo do desejo do adulto, na submissão, perdendo progressivamente a autonomia, a criatividade, as possibilidade de comunicação, a disponibilidade espontânea em relação aos outros e ao mundo.
Atualmente assiste-se a uma liberalização aparente da criança e do jovem, o que agrava mais a destruição da pessoa. Expõe-se a criança e o jovem a assumir uma autonomia para a qual não estão preparados. Trata-se de uma liberdade sem poder, sem responsabilidade, que se reduz à liberdade de recusar, de não fazer nada. (Lapierre e Aucouturier, 2004, p. 109)
Não são as reformas de conteúdos, programas, métodos que mudarão a realidade. O sistema dual continua: ensino de elite e ensino de massa produzindo uma sociedade cada vez mais complexa, hiperhierarquizada, movediça. No entanto, a qualidade de vida é existir livremente, ser sujeito, agir sobre o mundo, mantendo a autonomia das próprias decisões.
O que as jovens gerações precisam é do acesso ao poder real, ao poder de criação, de decisão, de gestão, à responsabilidade. Isto não se improvisa. Começa desde cedo, por uma educação diferente. A liberdade não assumida se transforma em anarquia e a insegurança da desordem recria a necessidade do “pai”, no sentido freudiano.
É necessário, portanto, repensar a educação em seus objetivos profundos, por uma completa inversão de valores, atribuindo a prioridade ao “ser” e não ao “ter”.
O Curso de Pedagogia do ISECENSA defende a educação como processo de evolução da pessoa e não apenas como processo de construção de conhecimento.
A Educação um processo consciente do educador presente no inconsciente do educando. É no nível simbólico do educador e inconsciente para o aluno que se fará a articulação da relação. (Lapierre e Aucouturier, 2004, p. 10). Falamos então em etapas de evolução da pulsão da vida na sua expressão simbólica. Isto não é utopia sem fundamento, pois o núcleo psicoafetivo primário é determinante para toda a evolução da pessoa.
Para realizar esta utopia é preciso repensar a formação do educador, repensando a escola em suas bases. “Evidentemente, repensar a escola é, em primeiro lugar, repensar a formação dos educadores”. (Lapierre e Aucouturier, 2004, p. 110)
Sem dúvida, a simples convivência com o educando como ser humano e um relacionamento profundo com ele – relacionamento de pessoa a pessoa – constitui enfoque diferenciado em educação. Desse modo, o processo de construção do saber se torna quase inconsciente, porque inserido na dinâmica da ação, da interação, do prazer, do vivenciar e da convivência.
A psicanálise ensina que, quando a criança recupera ou mantém o dinamismo do seu ser e assume a autonomia de seu desejo , ela se torna surpreendentemente disponível, assimilando simultaneamente, grande quantidade de conhecimento. Eis porquê o professor deve acender o desejo de conhecer nos estudantes e não fixar-se em um saber programado, fragmentado, uniformizado e hierarquizado.
Sabe-se que, o que os estudantes aprendem, 60%, aproximadamente, vem de fora da escola. Esses 60% correspondem ao que de fato desejam. Não constituem obrigação. Infelizmente os programas propõem aos alunos o que eles “devem” saber e não o que eles “querem”. O resultado é a desmotivação, o desinteresse e a luta dos professores para motivá-los. Com motivação apenas externa é difícil aprender a aprender e o resultado é esquecido rapidamente.
O ensino baseado em programas estruturados pode esterilizar a criatividade. A motivação a partir do desejo do aluno, das suas vivências e construções interiores leva à interdisciplinaridade, ao desejo de pesquisar e criar, o que eleva o potencial cognitivo do aluno.
Acreditamos com Lapierre e Aucouturier que o estudante aprenderá mais rapidamente e colocará em prática esses conhecimentos quando deles necessitarem para realizar o que desejam fazer. O papel do educador é atuar no momento certo, fornecendo aos estudantes os instrumentos que necessitam para evoluir em processo construtivo de “ser” e de “saber”.

A construção do conhecimento no século XXI envolve diálogo constante, relações sociais transparentes, respeito e valorização da cultura e conhecimento já existentes e afetividade.
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